Sunday, June 22, 2008

Uma Peça Para Galeria


Confessamos ter pena por só agora darmos sinal acerca desta Peça Para Galeria.
Agora que tememos ser tarde demais.
Agora que acabou e que não se pode mais ver (a não ser, claro, que voltemos a ter a oportunidade de partilhar o bom momento que é fruir este trabalho de André Murraças, noutra altura qualquer ou noutra galeria qualquer).
Mesmo assim não podíamos deixar de dar o nosso sinal de preenchimento, depois de, na primeira noite de Verão, quando a Lua Cheia já lá ia, termos começado tudo com esta.
Murraças, que é actor, performer, escritor, coreógrafo e afins, monta um espectáculo, que é resultado de tudo isto e ainda da sua perspicácia social, numa galeria.
A Appleton Square montada como que para começar mais uma noite de croquete, com uma exposição que podia ser contemporânea, mas também vulgar, e com audio-guias, como o soro (esta palavra já nos assusta, daqui a dias seremos nós ligados ao soro) dos turistas nos museus do mundo inteiro.
A partir daí tudo passa a ser diferente.
As experiências no espaço da galeria são catalisadas pelas gravações (3) reproduzidas pelos auscultadores.
Passamos a estar sozinhos mesmo que rodeados.
As conversas não são mais as nossas e há música, e há memórias como a voz de Eládio Clímaco (que aliás é o momento alto, ou "a cereja no topo e um bolo", quando nos remete para as suas locuções em voz off de programas que éramos obrigado a ver, através de uma visita pela suposta exposição, guiada através de banalidades sobre cada obra e de um discurso completamente induzido, sem deixar o menor espaço à fruição).
Vive-se do paradoxo do momento do croquete ("olá, olá") e das dissertações filosóficas acerca da arte e do objecto artístico.
É tudo isso que acontece nas noites das quintas feiras e que tinge a nossa vida.
É isso que a André Murraças sabe o que é e põe ali, à vista de todos.
(imagem: still da nossa sessão de Untitled - Uma Peça Para Galeria, na Appleton Square)

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